Esqueça, ainda que na força da memória afetiva, aquela muralha intransponível que vestiu a camisa de Marrocos nas tardes históricas do Catar em 2022. O futebol, em sua natureza mutável e dinâmica, operou uma revolução silenciosa em Rabat. A saída do técnico Walid Regragui abriu alas para a ascensão de Mohamed Ouahbi, antigo mentor das categorias de base, transformando o outrora exército reativo em uma engrenagem sedenta por controle, volume de jogo e posse de bola estruturada.
O Xadrez da Direita: A Liberdade Asfixiante de Hakimi
O grande enigma que tira o sono da comissão técnica de Carlo Ancelotti atende pelo nome de Achraf Hakimi. No novo desenho marroquino, montado em um dinâmico 4-2-3-1, a saída de bola se inicia em um sólido padrão 3-2, onde Noussair Mazraoui afunda pela esquerda como um terceiro zagueiro base, ao lado de Issa Diop e Chadi Riad, liberando os volantes Benjamin Bouchouari e Amir Richardson. Esse mecanismo dá a Achraf Hakimi a carta branca para se transformar em um elemento de caos indefensável: ele pode atacar a amplitude pelo corredor ou afunilar como um meio-campista de elite.
Essa movimentação sobrecarrega o lado esquerdo defensivo do Brasil. Se o lateral Alex Sandro saltar na marcação de Achraf Hakimi, abre-se a cratera para a infiltração de Brahim Díaz. Se decidir conter o astro do Real Madrid, Ismael Saibari — atuando como um falso nove de extrema mobilidade — flutua para arrastar os zagueiros Marquinhos ou Gabriel Magalhães, gerando o espaço perfeito para o veloz ponta-esquerda Soufiane Rahimi atacar as costas da marcação no facão em diagonal.
"O lado direito de Marrocos é o setor forte, onde Hakimi e Brahim Díaz jogam muito próximos. Se a decisão de Alex Sandro em saltar falhar, a estrutura do Brasil estoura."
O Caminho das Pedras: A Avenida Esquerda de Marrocos
Se a asa direita marroquina impõe medo, o flanco esquerdo de sua defesa se apresenta como um convite ao banquete para os atacantes brasileiros. O corte de Abde Ezzalzouli por lesão ligamentar forçou a improvisação de Soufiane Rahimi — originalmente um camisa nove no Al-Ain — como ponta-esquerda, um jogador que naturalmente carece dos cacoetes defensivos necessários para recompor a linha de marcação. Para piorar o cenário de Mohamed Ouahbi, o lateral Noussair Mazraoui chega ao torneio castigado por seguidos problemas físicos.
É exatamente ali que reside a grande chave tática para a Seleção Brasileira. Diante dos desfalques de peso na ponta-direita e a tendência de Lucas Paquetá em afunilar o jogo por dentro, a utilização de Luiz Henrique desponta como a cartada cirúrgica de Carlo Ancelotti nos treinos preparatórios. Um ponta agressivo e vertical, capaz de prender a marcação e castigar o mano a mano contra Noussair Mazraoui, é o antídoto ideal para empurrar Marquinhos e seus comandados ao ataque, transformando o corredor esquerdo africano no mapa do tesouro para o triunfo na estreia da Copa do Mundo.






